Adormecido na Tempestade: Descanso no Conflito Racial


Eu pensei várias vezes e meditei se deveria falar ou não. Em primeiro lugar, uma das principais razões é porque eu não quero parecer desdenhoso com a situação daqueles que estão ao meu redor ou parecer insensível ao que está acontecendo. Em segundo lugar, minha hesitação em me comunicar é porque não quero que haja uma pitada de auto-justificação diante do Senhor. No entanto, cheguei a um ponto em que acredito que será útil para alguns e também para os críticos sobre o assunto. Entretanto, não irei às redes sociais, mas estou mais do que feliz em ouvi-lo pessoalmente, conforme o tempo permitir. Outros apreciarão isso, enquanto alguns ouvirão o que eu não estou dizendo e dirão: “Stuart, você não é daqui, não entende”. Também com relação a estas críticas estou em paz. No entanto, isso não me impedirá de falar o Evangelho, como foi transmitido a mim e como eu o vejo nas Escrituras.

Muitos me perguntaram como estou me posicionando diante dos recentes incidentes policiais envolvendo a morte de dois homens negros. Eu “hesitei”,  jogando fora uma ou duas linhas, não querendo comunicar que estou insensível ou deixar transparecer a verdade honesta de que eu realmente estava dormindo no barco com Jesus nisso. A verdade é que atualmente não tenho medo da polícia, não tenho medo de dar um passeio ou correr, nem me perder ou me confundir com o que está acontecendo, mas estranhamente, pela graça de Deus, estou dormindo no barco. Eu estou há algum tempo. No entanto, devo confessar que nem sempre foi assim e tenho certeza de que haverá momentos em que terei que lutar com isso. Entretanto, cada vez mais, isto não é a narrativa abrangente da minha alma. Alguns de vocês podem perguntar: “Por quê? Você não se importa? Você não é preto? Você está fora de contato ou ficou bêbado com o privilégio das pessoas ao seu redor? Não. Pelo contrário, eu não apenas entendo, mas experimentei e senti o medo, a raiva etc., mas o Espírito continuamente me incentivou a voltar-me para Ele. Nem sempre foi assim, mas já passei muitas estações e encontrei respostas surpreendentes, perturbadoras e alegres. Eu ganho, perco, e muitas vezes tenho que trabalhar o meu caminho de volta, ao recorrer a Ele. Encontro-me fora do curso com facilidade, e encontro meu caminho para casa de novo e de novo, depois de estar cansado de comer da raiva e da angústia de uma terra distante.

Por mais de vinte anos, para consternação de muitos, tenho falado, assim como muitos outros, sobre os próximos conflitos raciais nos Estados Unidos e que, através deles, o Senhor passará de tempos em tempos a arrancar os “band-aids” e expor a falsa paz e segurança e a profunda angústia racial na terra. Também falei, juntamente com outras pessoas, sobre o chamado da Igreja de Jesus para lidar com seu papel de testemunha racialmente unificada em meio a conflitos raciais e que os seguidores de Jesus precisavam ser libertos da narrativa politicamente liberal e conservadora sobre a questão da justiça e descobrir o caminho de Jesus, conforme é comunicado por toda a Escritura (Salmo 119: 160), tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. Eu falei sobre isso literalmente quase 10 mil vezes em cenários individuais, pequenos grupos, na plataforma diante de centenas e milhares de pessoas, em meios de comunicação, em intermináveis ​​conversas de texto, etc. Por esse motivo, por mais de 20 anos, quase 30 anos, fui forçado a deixar minha alma estremecer ao pensar no próximo conflito racial.

Esta não foi uma tarefa fácil, pois foi recebida com resistência, falta de entendimento e descrédito, tanto devido aos ouvintes quanto à minha própria imaturidade, nos dias passados, sobre como comunicá-la. Por que você está falando sobre isso? Você é liberal? Você é um conservador? O que você é? Você é negro? Você é anti-negro? Você não se importa com a América. Você tem cuidado para que este assunto não aborreça as pessoas? etc. Eu quis desistir várias vezes, mas o encargo era muito real. Não pedi por ele, nem o quis e não tenho certeza de que ainda o queira. No entanto, é um encargo que está dentro de mim profundamente, e continuo a experimentar o impulso indesejável do Espírito de continuar a levantar minha voz. Eu continuo pensando que essa situação atual é outro estopim que dará base para outros e outros no futuro. Jesus nos falou sobre isso nas Escrituras.

No meio desta jornada, há mais de 20 anos, descobri o que eu chamo carinhosamente de irmão Habacuque. Eu encontrei nele uma ampla gama de emoções enquanto ele andava com Deus na verdade sobre a justiça. Havia um verso que foi particularmente impressionante para mim.

“Ouvindo-o eu, o meu ventre se comoveu, à sua voz tremeram os meus lábios; entrou a podridão nos meus ossos, e estremeci dentro de mim; no dia da angústia descansarei, quando subir contra o povo que invadirá com suas tropas.” (Habacuque 3:16, ênfase minha)

Ao olhar para os detalhes nas Escrituras sobra a próxima crise do tempo do fim, ela nos força a lutar com certas dinâmicas do coração. O irmão Habacuque, no início, lida com o Senhor sobre o triste estado de Judá, mas o Senhor disse ao irmão Habacuque que haverá uma crise maior, como parte da misteriosa solução para o problema atual. Muitos de nós sabemos que, embora as coisas estejam “ok”, as coisas ao mesmo tempo não estão “ok” e pedimos respostas a Jesus. É por isso, que muitos de vocês são intercessores. Neste versículo, vi um princípio de que, no tempo em que as coisas estão “ok e ainda não estão bem”, é hora de nos deixarmos perturbar, cada vez mais e mais profundamente, pela verdade dita pelos profetas da antiguidade.

Quando abraçamos a notícia de uma tempestade que se aproxima, nosso interior é tão trabalhado por isso, que quando ela vem, podemos andar em paz, ter clareza e ser uma voz de sabedoria, conforto e amor. O irmão Habacuque nos diz que um grande problema está chegando, mas servirá como um contexto para que a justiça produza a fé (Habacuque 2: 4), para que possamos entrar e viver para sempre na vinda da justa sociedade de Jesus na Terra para sempre (v. 14 ) – o reino de Deus. Ao mesmo tempo, confesso que ainda não consegui isso em nenhum momento da imaginação. Minha alma ainda precisa lidar totalmente com a tempestade que está chegando à terra, e há muito mais luz que Jesus quer brilhar em meu coração. No entanto, há uma paz surpreendente que tenho que está liberando minha alma para ser abalada com as notícias do que está por vir como uma crise nos próximos anos e décadas. Meus amigos, eu ouço as notícias, ouço as “profecias” sobre a terra que brilha cada vez mais. Mas meu conflito pessoal ocorre quando olho para as profecias do carpinteiro judeu, o próprio Filho de Deus, e percebo que muito do que está sendo dito simplesmente não se alinha à Sua Palavra. Quando se trata de questões raciais, Ele declarou: “nação contra nação”. Ele profetizou conflitos étnicos na terra que atingirão proporções apocalípticas; e todo estopim social é um indicador dessa realidade e um convite para que os seguidores de Jesus sejam perturbados e se tornem testemunhas do evangelho em meio a conflitos raciais. A boa notícia é que Jesus não mente nem exagera, e a má notícia é que Jesus não mente nem exagera. Ele nos disse muito claramente que “essas coisas devem acontecer“. Ele também disse com isso: “Cuide para que você não esteja perturbado“.

Fico abalado com os próximos acontecimentos. No entanto, quando estou abalado, sei que isso é verdade: é um indicador, um alarme, que há áreas em minha alma que estão erroneamente ancoradas em coisas que podem ser abaladas, e que é hora de me reajustar, resistindo à tentação de procurar um falso alívio da pressão de ser perturbado pelo evangelho. O Senhor certa vez falou com um amigo profético e disse: “Não estou dizendo tanto quanto você diz que estou dizendo, mas estou dizendo muito mais do que você deseja ouvir”. Vamos ficar diante dEle e, através da Palavra de Deus, inclinar-nos e ouvir.

O evangelho tem boas notícias e ainda coisas incrivelmente desconfortáveis ​​a dizer sobre justiça para aqueles que perpetuam a injustiça e para aqueles que são afetados pela injustiça. Sua voz vai romper. No entanto, é bastante perturbador pensar que Ele gentilmente, sabiamente, com amor e com determinação, expressará seu ponto de vista.

Então, alguns de vocês estão perguntando, o que faremos com tudo isso?


Em primeiro lugar, o Pai falou audivelmente na montanha a Pedro, Tiago e João, dizendo: “Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo, ouça-o“. Jesus falou conosco em muitos lugares; e o que eu tenho em mente é Mateus 24, o capítulo inteiro, incluindo tanto os avisos quanto a resposta que Jesus pede que tenhamos.

Em segundo lugar, ore. Passe algum tempo com Jesus. Peça a Ele que revele Seu amor por você, como em Sofonias 3:17.

Em terceiro lugar, peça graça ao Senhor e considere a postura do irmão Habacuque, que entendeu que sua perturbação interna era uma indicação de não estar alinhado com a perspectiva do céu e que a medida em que nos falta paz é a medida pela qual não estamos conectados com os interesses de Cristo, mas com os interesses do eu e do homem, vivendo assim por nossa própria perspectiva autoconsumida e limitada.

Em quarto lugar, considere se desligar das reportagens por um tempo (TV, jornais, etc.). Da perspectiva do céu, são todas “notícias falsas”. Há uma notícia que o céu tem para nós (Isaías 53:1). É a notícia de Aslan. E, embora não seja uma notícia mansa, mas perigosa e intrinsecamente perturbadora, ainda é boa.

Em quinto lugar, peça revestimento do Espírito Santo para fazer uma jornada para descobrir sua cidadania celestial (Filipenses 3:21) e o que significa ter sido comprado de um povo (Apocalipse 5: 9) e trazido para outro (1 Pedro 2: 9).


Pai, eu oro em nome de Jesus que você nos visite, visite meus irmãos e irmãs e eu. Dê graça aos nossos corações, dê-nos a força para nos voltarmos à Sua Palavra, Seus caminhos e Seu propósito. Sou grato, Abba, por Você ter nos dito que podemos chegar a Seu Filho quando estivermos sobrecarregados e angustiados e que Você não apenas nos concederá um descanso gentil e humilde, mas também nos instruirá. Pai, conceda-nos descanso na tempestade e instrua-nos no Seu caminho. Abba, irradie Seu rosto glorioso, deixe a luz de Seu semblante brilhar em nossos corações, enchendo-nos de Sua glória, beleza e maravilhas. Perdoe-nos pelos caminhos da fé e da esperança equivocadas e nos instrua nos Seus caminhos e forme Cristo em nosso interior. Em nome de Jesus, Amém.


Stuart Greaves

Fonte: https://www.ihopkc.org/resources/blog/asleep-in-storm-rest-amidst-racial-conflict/

Tradução: Carlos Eduardo Rodrigues (Cae)

3 comentários em “Adormecido na Tempestade: Descanso no Conflito Racial

  1. Lendo o texto e identificando o contexto dos conflitos, a pretexto de problemas raciais nos EUA, vejo que, no Brasil, estamos em paralelo, não por aquele motivo de lá, ainda que alguns tentem forjar aqui um clima de conflito étnico por imitação, mas por nossas próprias guerras e inquietudes sociais e políticas do momento. É tenso ver que aqui e lá, a tensão espiritual é a mesma. Realmente, esse princípio das dores parece estar se movendo para dores mais intensas, como já disse alguém aqui no site. Mas a fórmula da paz, em meio a tempestade é a mesma, tanto lá como aqui, resolver nossas pendências internas quanto ao “ânimo dobre” e mergulharmos de cabeça no ambiente do Rei, do Rei dos Reis – nisso estará a nossa paz.

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