Como a Bethel traz “o Reino” errado? (Pt. 1)

Os sofrimentos de Jesus se materializaram na perseguição que ele sofreu e na carga que ele carregou pelas pessoas. Ele não sofreu com doenças. Isso tem de ser removido de nossa ideia de sofrimento cristão. É inútil carregar algo sob o disfarce da vontade de Deus quando isso é o que ele comprou para poder destruir seu poder sobre nós. Um conceito adicional a ser lembrado é que Ele sofreu para que nós não tivéssemos de sofrer. Por exemplo, ele suportou as chicotadas aplicadas em seu corpo por um soldado romano para que elas pudessem se tornar seu pagamento por nossa cura (Is 53.4-5).

Se o sofrimento dele foi insuficiente, então o que ele consumou? Esse erro, se persistirmos nele, traz à discussão toda a questão da conversão e do perdão dos pecados. É verdade que os sofrimentos de Jesus não se encerraram ainda, mas ele têm que ver com nosso chamado a uma vida reta num mundo injusto. Isso produz pressão sobre nossa vida que vai desde a perseguição pelo fato de vivermos para Cristo até a carga que suportamos como intercessores perante nosso Pai celestial, quando defendemos a causa do perdido.

Quando permitimos que a doença, o sofrimento e a miséria sejam aceitas como instrumentos ordenados por Deus que ele usa para nos tornar mais parecidos com Jesus, estamos participando de uma encenação muito vergonhosa. Não há dúvida de que podemos usá-los, como se sabe que ele pode também usar o próprio Diabo para seus propósitos. Mas pensar que essas coisas são liberadas em nossa vida obedecendo ao seu planejamento, ou que ele aprovou tais coisas, é minar a obra do Calvário. Para fazer isso é preciso negligenciar por completo a vida de Cristo e o propósito da cruz. Nenhum de nós diria que ele morreu por nossos pecados, mas ainda pretende que eu fique preso por atos pecaminosos. Nem que ele pagou por minha cura e libertação para que eu continuasse em sofrimento e enfermidade. Sua provisão por tais coisas não são figurativa: é real.

Além disso, é uma desonra ao Senhor não levarmos em conta sua obra, justificando, assim, nossa dificuldade em crer no impossível. É hora de admitir a natureza do evangelho e pregá-lo pelo que ele é. Isto é a resposta para todo  dilema, conflito e desgosto no planeta. Declare-o com ousadia e observe Deus invadir a terra novamente.

[Bill Johnson, Face a face com Deus, Editora Vida, págs. 176-178]



Introdução

Devemos considerar Bill Johnson e seus colegas professores da Bíblia na Betel como irmãos em Cristo; há muitas evidências de que eles têm um amor genuíno por Jesus. Embora isso seja verdade, o ensinamento da Betel sobre o Reino é uma interpretação única do que é essencialmente a mensagem do Evangelho e isso deve nos dar uma pausa para a investigação.

Segundo Bill Johnson, o Evangelho é “a resposta para todos os dilemas, conflitos e aflições do planeta”. É um persistente refrão dele que a tarefa do cristão é ser o veículo através do qual “o céu invade a terra”. Portanto, tudo o que experimentamos na Terra que não é compatível com a realidade no céu não deve ser tolerado pelos cristãos.

Tentarei mostrar que, embora alguns desses ensinamentos tenham uma base na verdade, se forem removidos do restante dos ensinamentos de Jesus e enfatizados, negligenciando outros atributos importantes do reino, eles produzirão cristãos doentes.

Então, o que Jesus quis dizer quando nos ensinou a orar as palavras: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”? Johnson interpreta isso como significando que nós, como crentes, devemos puxar o céu para a terra, pela fé. De acordo com o pensamento, nós, como crentes, introduzimos o Reino fazendo milagres e destruindo as obras do maligno, para que possamos fazer um tipo de céu aqui. É isso que Jesus tinha em mente? Neste artigo, vou mostrar como a compreensão da Bethel sobre o Reino pode impactar na maneira como entendemos: o Evangelho, a salvação, o fim dos tempos, o sofrimento e o estilo de vida apostólico. [1]

Céu na Terra

Em seu livro How Heaven Invades Earth, Kris Vallotton [2] explica como ele acha que isso deveria parecer na prática. A imagem que ele pinta começa a parecer muito estranha e confusa. Ele cita extensivamente profecias do Antigo Testamento e começa a aplicá-la incorretamente aos nossos dias e tempos atuais. Deixe-me dar um exemplo. Ele cita Isaías 2.2-4:

“Acontecerá nos últimos dias que o monte do templo do SENHOR se firmará como o mais elevado e será estabelecido como o mais alto dos montes, e todas as nações correrão para ele.Muitos povos irão e dirão: Vinde e subamos ao monte do SENHOR, ao templo do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas. Porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do SENHOR. ‘Ele julgará entre as nações e será juiz entre muitos povos; e estes converterão as suas espadas em lâminas de arado, e as suas lanças, em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra.’

Ele continua oferecendo este comentário sobre a passagem:

Medite nesses versos por um tempo e eles vão fazer você feliz! As nações não vão mais estar em guerra umas com as outras porque vão para a casa do Senhor e aprendem os caminhos de Deus. Isso poderia resultar, por exemplo, em nações que remodelam suas fábricas de armas em fábricas que geram produtos frescos para alimentar o mundo? Faz totalmente sentido quando você compara a profecia de Isaías com a comissão que Jesus nos deu para fazer discípulos de todas as nações e depois ensinar-lhes tudo o que Ele nos ensinou (ver Mateus 28: 19-20). Esta poderia ser uma das maneiras pelas quais devemos ser uma bênção para todos os países do mundo ”. [3]

Acho que todos concordamos que meditar nas maravilhas do novo céu e da nova terra produz um profundo sentimento de satisfação e alegria. Mas o que é bastante surpreendente é que Vallotton tem em mente a terra atual, aqui e agora, antes de Jesus voltar!  Ele continua citando passagem após passagem da profecia do Antigo Testamento e aplica-as ao aqui e agora, para que a seguinte imagem comece a emergir:

A igreja na terra irá:

Julgar entre as nações e tomar decisões por muitos povos.
As nações vão martelar suas espadas em arados e suas lanças em ganchos de poda.
Nação não mais erguerá espada contra nação, e nunca mais aprenderão guerra.
Não haverá fim para o aumento do governo de Jesus ou da paz.
Cidades e nações serão reconstruídas.
Nós veremos a restauração de todas as coisas.
A abundância do mar será entregue aos cristãos.
Nações, reis e pessoas virão até nós de todo o mundo para serem curados, salvos, libertos e transformados.
Em troca desses serviços – a riqueza das nações chegará até nós.
O mal não aumentará no fim dos tempos, mas será destruído. [4]

E tudo isso será alcançado antes que Jesus volte para julgar e reinar sobre o mundo!

Ao lermos esta descrição de “como o céu invade a terra”, há várias objeções que vêm à mente. Mais importante ainda, esta interpretação da profecia messiânica entra em conflito, radicalmente, com o que o próprio Jesus nos ensinou sobre o fim dos tempos! [5] De certa forma, esse impacto foi inevitável. Vallotton faz esta citação ao descrever sua mudança doutrinária,

“Jack Taylor coloca desta forma: ‘É difícil dar às pessoas o paraíso por meio acre, acreditando que as coisas estão indo para o inferno em uma cesta de mão’”. [6]

Além disso, ele diz: “Se devemos orar para que seja na terra como no céu, e se fomos comissionados a “fazer discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19), então não há razão pela qual precisamos de uma nova abordagem para o fim dos tempos?” [7]

Revisemos a oração que parece estar na origem de grande parte dessa confusão: “Venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu.” Não deveríamos interpretar essa escritura de maneira muito mais simples? Estamos realmente pedindo para Deus fazer o celestial na terra? Na vida de Jesus nós o vemos ministrando a graça de Deus a muitas pessoas, mas mesmo em sua vida, podemos honestamente dizer que ele fez um paraíso na terra naqueles lugares onde ministrou? Havia profundo arrependimento, cura e milagres, com certeza, mas certamente não era o fim de todo sofrimento para aquelas cidades.

Isso me leva a outra objeção. Nosso futuro com Jesus no céu é a “alegria diante de nós”. O ponto principal do céu é que é fundamentalmente diferente da terra. A promessa a que nos apegamos é que se servirmos fielmente a Jesus nesta vida, receberemos uma herança dele, seremos livres de todas as provações e dores, que são nossa realidade diária. Nunca será como o céu na terra. Uma breve lição de história deixará claro esse ponto. Quando Adão e Eva se rebelaram contra Deus, Deus os amaldiçoou e amaldiçoou a terra onde ainda vivemos. Como resultado da maldição, Deus disse que, sempre, depois disso: o trabalho seria pesado, o parto seria doloroso e a morte seria inevitável.

Desde a reconciliação que Jesus alcançou para nós na cruz, ainda sentimos os efeitos dessa maldição, mesmo como crentes. Esta maldição, não obstante, ainda sofremos das conseqüências de: nossos próprios pecados, os pecados dos outros e os pecados de Satanás dirigidos contra nós. Nenhuma quantidade de milagres fará um paraíso na terra. Não apenas isso, mas Jesus deixou expressamente claro que essa não deveria ser a nossa expectativa de uma vida seguindo-O. Ele disse: “No mundo tereis tribulações; mas não vos desanimeis! Eu venci o mundo.” (João 16:33)

Jesus queria nos salvar de quaisquer falsas expectativas de como seria em seu serviço. Ele disse que devemos medir o custo antes de escolher segui-lo, considerando o fato de que seria um caminho mais difícil de seguir. Ensinar aos cristãos uma versão “envolta numa bolha” do Evangelho não os trará benefícios quando for necessário perseverar através das dificuldades.

[1] Esta frase refere-se ao estilo de vida de um crente que vive a grande comissão de “ir em todo o mundo e fazer discípulos”.

[2] Kris Vallotton é um pastor de ensino muito influente na equipe com Bill Johnson na igreja de Bethel.

[3] Vallotton, Kris (2013-04-23). How Heaven Invades Earth: Transform the World Around You (pp. 200-201). Baker Publishing Group. Kindle Edition.

[4] Este é um resumo das conclusões de Vallotton a partir das passagens proféticas em Isaías.

[5] Veja Mateus 24

[6] Vallotton, Kris (2013-04-23). How Heaven Invades Earth: Transform the World Around You (p. 208). Baker Publishing Group. Kindle Edition.

[7] Vallotton, Kris (2013-04-23). How Heaven Invades Earth: Transform the World Around You (p. 207). Baker Publishing Group. Kindle Edition.


Fonte: Epiphanies and Orthodoxy

Tradução: Felipe Silveira

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